
PARA UM FUTURO NÚMERO 10
Olhar intrigado e crítico de um pai vendo o filho participando de uma peneira de futebol.
Do meu canto, com mãos firmes segurando o alambrado, fico torcendo que a bola tome chá de asa de beija-flor e vá direto ao lado oposto do goleiro.
Fico torcendo. Infelizmente vejo que não acontece o que peço intimamente. Os chutes em quase todos os lances saem mascados, mesmo o dono das pernas tendo-as do tamanho das de um tuiuiú. A força que impôs ao chute, é suficiente para pôr abaixo uma parede de tijolos nus.
Rapa-Bosta, falam uns, Perna de Pau, dizem outros, pé de rato, mais alguns. Tantos adjetivos compostos vira lacração nessa hora.
Oralmente falo do meu lugar de solidão sem que ninguém perceba o movimento da boca, estou ligado torcendo por alguém que sou eu, torcendo por quando a bola chegar nele, faça jogada de um Pelé.
Depois de duas ou três intervenções, percebo que é alguém que não nasceu para dar afago de bom amante à pelota e, em cada jogada que os bons de bola fazem, vão o afastando mais da redonda, o deixando de lado, esfriando o seu furor em querer mostrar que também é bom boleiro.
É público e notório fazer jus a frase antiga: a bola procura sempre os craques.
De múltiplos pés somados aos dois de mim mesmo, vejo-a partir a bola girando inibida e sem direção, seguindo em trajetória de extensa curva para qualquer canto do campo, menos para o objetivo principal: o gol ou os pés de quem a solicitou e que joga bonito.
Bola sem direção, sai de 90% dos pés que correm feito animal em fúria em busca de alimento, mas que não nasceram para encontrá-lo no melhor pasto das quatro linhas do campo de futebol.
Do meu canto de solidão e sonho de ver o filho na Europa, sinto certa inveja no rosto de quem tem filho que chuta bola certeira, por ver que de alguns pés em menor grau de desenvoltura, à pelota age com a naturalidade dos monges budistas endereçada ao passe ou ao gol e, com a sutileza de um apaixonado, cai nos pés de quem a admira e sabe direcioná-la nos passes e dribles ligeiros para fugir dos pés de carrascos concorrentes pernas de pau.
Como sou egoísta de não ter olhos para as bolas que saem de outros pés, moldados sobre a dinâmica do gênio da natureza que detém o poder de fazer um craque de bola nascer.
Tão poucos sabem fazer da bola seu brinquedo de raro poder.
Bonito é vê-la a quem sabe tocá-la com a sutileza dos craques do passado e de hoje, sair girando no próprio eixo, deslizando no tapete da perfeição, dando dificuldade ao goleiro em espalmá-la ou encaixá-la retirando-a da trajetória da rede.
Bolas que partem de pés de gênios assim fazem que o goleiro maldiga o atacante.
Com certeza é moleque que soube namorá-la desde a infância, visualizando-a entrando entre a trave e o goleiro, ali, naquele lugar onde a coruja faz o ninho, na junção dos dois ferros que formam ângulo de noventa graus, e assiste depois do chute, ela ir lentamente ou velozmente no lugar escolhido pela visão do craque que tem visão panorâmica de toda área do campo.
Bonito mesmo é ver moleque bom de bola, que quase sempre nos seus chutes ao gol, faz o goleiro beijar o tapete verde do gramado e se contorcer em dores de remorsos, tentando lentamente se levantar, ouvindo gritos de alegria da torcida adversária.
Como sou egoísta em não enxergar o filho do pai que está ao lado se contorcendo de alegria nos gestos de braços e pernas, vendo o filho que sabe tudo de bola, tocá-la com suavidade, sem esforço, sem a maus-tratos.
Como sou egoísta em ver só o meu filho tentando ampará-la entre as pernas, no peito, na coxa, tentando uma cabeçada certeira e a dona de todas as glorias do futebol se insubordinar e não querê-lo para si.
Esse a quem invejo “numa boa”, porque o futebol é a arte de quem não sabe enganar, tem destino garantido num grande clube espalhado pelo mundo. Terá o número 10 nas costas, levando à responsabilidade de dá continuidade a arte do futebol clássico, onde não só a força física é parâmetro para as conquistas.
Falo com alguém do lado que na certa é pai de algum moleque da peneira. Esse tá garantido. Vai ser o craque de qualquer time grande. Do Brasil, do exterior, do futebol arte.
Do meu canto me vejo o assistindo e torcendo por ele, não mais pelo meu filho, esse não tem jeito, porque sei que o futebol, o craque de bola, o diferenciado, merece aplauso, por não ser mais um entre os onze para completar a escalação.